16.6.12

Debaixo de chuva

Sexta-feira, oito da manhã e tudo pronto. Saímos de casa – custou-me especialmente a acordar porque na noite anterior estive num jantar de trabalho e deitei-me tarde. Dirigimo-nos a pé para escola. Vamos deixar os meninos. Chove mas não está vento. Eu e a Lindinha levamos os respectivos chapéus de chuva. O dela é de fadas – muito mais giro que o meu. Os rapazes levam apenas os seus casacos, cabeça descoberta e expressão pronta de que é só água e que não são torrões de açucar para se desfazerem nela. Vamos a pares, conversando.

Chegamos à escola. O Di dá a cabeça para que lhe dê um beijo e segue conversando com quem lhe cruza o caminho. Desaparece na escola.

Entro na outra porta da escola com a Quiducha. O trânsito e ritmo do costume, os ˝bom dia, como está?˝ habituais. Depois do beijo ela fica, satisfeita, e deixando-me a sensação de perfeito domínio.

Saio da escola. O Nuno sorri provocando um irlandês sobre a derrota de futebol da sua seleção na noite anterior. Continua a chover. Continuamos a pé, agora na direcção do meu trabalho.

Sob a chuva e sempre a caminho falamos de planos, de sonhos, de hipóteses. Hesitamos, contrapomos, concordamos. Vamos, ficamos e seguimos sem decisões.

Não interessa onde, nem para onde. Valem estes momentos. Juntos, sob a chuva, a fazer o nosso caminho.

Oito e quarenta e cinco, chego à porta do trabalho. O Grandalhão segue caminho, encharcado. Enfrento o dia com coragem, porque estes momentos me enchem a vida.

Patrícia

Di - cinturão vermelho com faixa verde


Esta fase do Di foi atribulada porque perdeu a mochila onde guardava o fato de lidership e a sua faixa. Mas acabou tudo por correr bem e também o Campeão passou nos exames (tinha conseguido todos requisitos logo no primeiro dia de exame) e ganhou hoje a sua faixa verde.



O nosso Campeão!

Patrícia

Kiki - cinturão amarelo com faixa vermelha

Semana de exames de Kung Fu. Seguindo os 3 pilares (disciplina, respeito, concentração) a Kiki lá vai seguindo o seu trilho (e o lema da escola ˝a black belt is a white belt that never quits˝) e, merecedoramente, ganhou a faixa vermelha no seu cinturão amarelo.



A nossa Kungfuseira estava contente.

Patrícia

14.6.12

deriva sociológica

Ouvi falar de um mundo no qual os pais assumem por inteiro o seu estatuto de geração dominante e remetem os filhos para uma posição secundária. Consta que ali a educação - e a escola em particular - é vista como um privilégio concedido pela sociedade aos seus membros mais novos. A lógica societária, de cariz marcadamente economicista, é simples e consiste em trocar produção presente - aquilo que as crianças poderiam (e que em tempos costumavam) gerar com o seu trabalho - pelo produto de altíssimo valor acrescentado que entregam enquanto adultos com formação. A diferença de produtividade é de tal forma assombrosa que permite compensar largamente o investimento feito no sistema educativo e as perdas decorrentes da ausência de rendimento durante os anos de escolaridade.

No tal universo paralelo, a sociedade e todos quantos existiam antes da criança aparecer são prioritários. Cabe aos novatos perceber as circunstâncias em que se encontram e conquistar o seu lugar no mundo. Para que isso seja possível, têm não só que respeitar os mais velhos e aprender com eles mas também trabalhar arduamente para justificar a aposta feita em si ao invés do próximo. Os miúdos - parte não consultada no processo pela reconhecida imaturidade para gerir o volume de informação disponível, filtrar as inúmeras opções que se lhes apresentam e tomar decisões com alcance de longo prazo - são encaminhados pela envolvente contextual para a dedicação ao estudo com a perspectiva de entrar no mercado de trabalho com qualificações que lhes permitam perpetuar o negócio familiar ou assegurar uma profissão com relevo na vida em sociedade.

Nada disto é a meu ver um recuo no tempo ou uma regressão na escala evolutiva. Esta sociedade dedica absoluto respeito ao imenso potencial do jovem e protecção incondicional à sua vulnerabilidade. Em paralelo existe contudo a percepção que a criança não é um produto acabado. É antes um adulto em formação, com uma compreensão incompleta e até difusa do mundo que a rodeia. Entregar-lhe a chave do seu futuro é meio caminho andado para um adulto confuso e desajustado. O fundamento para a realização pessoal está no sentido de pertença e utilidade, não na satisfação compulsiva de impulsos e vontades. É precisamente neste ponto que reside a principal responsabilidade dos pais enquanto educadores - ao apontar um caminho delimitam as fronteiras e protegem os filhos da desorientação.

Comparo este modelo com o vigente no nosso mundo dito desenvolvido, cada vez mais orientado para a secundarização do adulto em relação à criança ou adolescente. Obcecados com a juventude, receosos da redundância enquanto equivalente cultural da morte, petrificados pela inevitabilidade do afastamento dos filhos, abstemo-nos do papel de força motriz da sociedade e da família e depositamos nas mãos dos pequenos a esmagadora responsabilidade pelo seu próprio destino. Doutorados nas mais avançadas teorias pedagógicas, democratizadas nos media por psicólogos com talento ímpar para a comunicação, procuramos sacar à força o id das criancinhas, para que explorem desde tenra idade as suas paixões mais profundas e consigam com isso desenhar um futuro pleno de preenchimento.

- O que queres ser quando fores grande?

- Bailarina, cantora, jogador de futebol...

Em vez dos condescendentes sorriso e festa na cabeça, clássicos da infância e referências ancestrais da resposta dos adultos a manifestações de interesse por parte dos mais pequenos, reagimos solícitos.

- Então vamos inscrever-te numas aulinhas de música. Queres?

Encolhem os ombros e deixam-se arrastar, pensando com isso agradar aos pais que tanto empenho aparentam pôr em mais aquela actividade. Ah, como lhes apetecia ficar sossegados em casa ou no parque a brincar descontraidamente com a areia.

Cientes da importância da condescendência, respondemos então a baboseiras e dislates com tolerância e comedimento, poupando os nossos mais-que-tudo à temida palmada ou ao profiláctico ralhete. A felicidade dos meninos enquanto imperativo categórico pois da sua depende a nossa. A violência física e psicológica estigmatizada ao ponto da caricatura. Já não chega propiciarmos-lhes comida, tecto, protecção e educação. Hoje os pais têm que garantir também todo o resto que antes era deixado à iniciativa do próprio - integração social, experiências gratificantes e enriquecedoras, competências extra-curriculares e toda uma panóplia de elementos alegadamente essenciais ao crescimento equilibrado das frágeis criaturas.

A responsabilidade do sucesso dos pequenos na vida passou por inteiro para as mãos dos pais. Se para isso o adulto tiver que se anular enquanto indivíduo, assim seja.

Nuno

12.6.12

a crise dos trinta e tais

`Papá, já sei contar até mais de mil em português. Queres ver? Um, dois, três...`, conta a kiki sentada a meu lado no sofá da sala. Imerso entre as almofadas e absorto na leitura de uma notícia aleatória de um qualquer jornal digital, endireito-me sobressaltado quando a ouço correr os trintas - trinta e um, trinta e dois, trinta e três... - e martelar com leviandade o penoso número em que se cifra a minha idade actual. Se ela sequer o disse não posso garantir mas posso jurar que o ouvi com clareza. Com o choque deixei sem querer escorregar o portátil, até este se estatelar de ecrã para baixo nas pranchas do soalho, soltando em jeito de recriminação um queixume seco de plástico abandonado.

- Filha, já podes saltar de dez em dez, não vale a pena contar todas as unidades. Aliás, o pai sabe que tu sabes, não podes contar baixinho na tua cabeça?

Anui sem perceber a razão do pedido. Há-de pensar que é o ruído que me incomoda. Nunca poderia imaginar o paralelismo subconsciente que desenhei entre a sua contagem inocente e a implacável sucessão de anos que me teletransportou até hoje. Trinta e cinco, repito em surdina enquanto deixo a crua materialidade dos dígitos assentar e agitar o fundo poeirento da minha história.

- Pai, quantos dias são trinta e cinco anos? E quantas horas?

Não pode ser isso tudo. Não tenho como justificar tantos dias, tantas horas. Nem tenho história para esse tempo todo. Os tempos mortos não deviam contar, só os grandes acontecimentos. Quando era novo olhava para os trintões e rotulava-os de velhos. Nem conseguia imaginar-me com tal idade e muitas vezes pensei que estaria morto antes disso. Aqui estou contudo, trintão maduro em velocidade de cruzeiro em direcção aos quarenta.

- Pai, como era o mundo antigamente? Sabes, quando tu eras pequeno?

Depois de uns segundos de hesitação apanho o computador do chão, baixo a tampa sem verificar o estado em que se encontra e ergo-me num pulo. Um par de segundos à espera da tontura mas esta não vem, como se o sangue tivesse percebido a minha urgência e acelerado o regresso ao cérebro, como se o corpo refutasse o insulto e quisesse provar que continua fresco e pronto para a guerra. "O pior de ser velho é lembrar-se de quando se era novo", diz a personagem do filme. Benditos os filmes que nos fazem pensar, que nos sugam as referências morais e acabam numa indefinição de bem ou mal.

- Meninos, estão prontos para sair? Chega de perder o dia com preguiças.

Isto nada significa para eles. A percepção do tempo na infância é única. As crianças gerem o tempo como milionários às compras num centro comercial: há muito para gastar, o desperdício é trivial. Só quem percebe que é finito e o sente encurtar se preocupa em aplicá-lo sabiamente.
Por vezes imagino-me velho. Sem idade concreta - a contagem relevante é a dos anos que nos restam, não a dos que já passaram - mas no fim dos meus dias. E tenho infinita pena de partir, de deixar de cá estar, de saber que o mundo continua sem mim. Pouco importa quanto ou como vivi, vou sempre ambicionar mais. Gostava de acreditar numa vida para além da morte, numa continuação qualquer.

Saímos e passamos o dia em tarefas. Ao final da tarde regressamos a casa e podemos enfim gozar descomplexadamente a companhia uns dos outros. Sou um jovem e tenho ainda tudo pela frente.

Nuno

11.6.12

nós 4

Virá o dia em que os nossos filhos terão crescido, seguido as suas vidas, em que tomarão decisões sem nos consultar e olharão para nós como nada mais do que uma segurança emocional de recurso. Em total domínio do ambiente que os rodeia, julgar-nos-ão afastados da realidade, inadaptados às novas tendências, desinteressados das correntes emergentes. Desprovidos de utilidade prática para a sua integração entre pares, incapazes de compreender os desafios com que se deparam, seremos os actores secundários das suas vidas. Guardarão porventura uma ideia difusa do que lhes ensinámos e de tudo o que fizemos por eles enquanto cresciam. Talvez tenham até consciência da nossa contribuição para muito daquilo em que se tornaram. Mas vão certamente baralhar os factos, interpretar abusivamente esparsas memórias, confundir realidade com imaginação e julgar-nos à luz do que serão no futuro, sem tentar sequer perceber a forma de pensar na altura dos acontecimentos ou o contexto em que esses se produziram.

O dia virá em que os melhores tempos passaram. Olhando para trás, sonharemos acordados com a vida que vivemos. Agarrados às recordações, lamentaremos não ter gozado mais intensamente cada abrir e fechar de olhos, cada respiração, cada batida do coração. Recriminar-nos-emos então pela falta de paciência, pela ambição pessoal, por cada segundo desperdiçado a agradar a terceiros. Perguntar-nos-emos como fomos tão cegos, como deixámos o tempo fugir-nos entre os dedos, como foi possível não nos termos apercebido que deitávamos fora o melhor da vida. Aí dirá uma voz, interna ou exógena, que não foi bem assim, que tínhamos que trabalhar, que muito do que fizemos foi sobretudo por eles, que eles acabariam por nos agradecer um dia. E abrindo os olhos veremos meninos em forma de adultos, com os mesmos gestos, as mesmas vozes, os mesmos olhares que testemunhámos ao longo de décadas que se esgotaram num sopro.

Mas estes meninos adultos já não precisam de nós, a sua atitude é bem diferente daquela que nos habituámos a esperar. Já não sobram sequer as lutas e as patadas da adolescência, que tantos cabelos nos esbranquiçaram. Quem diria que viríamos a sentir falta desses tempos. Agora resta uma convivência cordial, com tentativas nem sempre bem sucedidas de respeito mútuo. Os tais agradecimentos ficam mudos, às vezes por vergonha mas em grande parte por falta de reconhecimento. Não que os quiséssemos - mais não foi do que a nossa obrigação - mas a intenção seria apreciada. Como pode um pai assistir calado aos erros de um filho, por mais crescido que este seja. Até estou disposto a aceitar que não percebo tudo o que se passa nos das de hoje mas já corri mundo, cometi os mesmos erros, vi passar gerações que desajeitadamente os repetiram, tenho algo a dizer. Porque não me ouvem?

Esse tempo está longe, repito baixinho para me tranquilizar. Por enquanto eles estão aqui ao pé de nós, são pequenos e dependentes, precisam da nossa ajuda e dos nossos conselhos. Por que raio os incentivo então a crescer? Que masoquismo é este que me impele a mandá-los para a frente e a ensiná-los a desenrascarem-se sem nós? Se prevejo este cenário que me assusta, devia guardá-los junto de mim, resolvendo todos os seus pequenos problemas, participando nas suas actividades, tentando ser da idade deles. Mas não o faço pois tal não me é permitido. Essa não é a função dos pais. As crianças precisam de pais que assumam a sua idade e se comportem como tal. Para o resto têm os amigos, os pares. Em termos holísticos é abusivo alegar que a vida é cruel, que temos pouco tempo - nunca vivemos tanto, nunca a infância foi tão prolongada, nunca os pais conseguiram dedicar tanta atenção aos filhos. Mas suponho que seja sempre insuficiente, que queiramos sempre mais.

Revendo a nossa história conjunta invade-me uma enorme realização. Acredito que vivi a fundo a maior parte dos momentos e que acompanhei de perto o seu crescimento. Estou convencido que mais não poderia ter feito, que qualquer acrescento teria sido excessivo e degenerador. Uma criança não precisa de pais sufocantes ou sufocados. Para poder dar-lhes o amor, a educação, o sentido de direcção e a estrutura que lhes são devidos, os pais têm que sentir-se pessoalmente realizados, guardar sonhos e ambições individuais e conservar uma relação saudável enquanto casal. O equilíbrio é delicado e exige lucidez, sobretudo nos momentos de maior tensão ou agitação. Longe de tudo e de todos, consegue-se assegurar maior unidade familiar mas nem sempre é possível encontrar espaço para a afirmação individual.

Tudo começou há 12 anos, numa manhã de setembro no final do século passado, num deslumbrante palácio lisboeta convertido em centro corporativo. A conversa tensa desse dia deixou marcas ilegíveis mas duradouras. O remoínho teve origem num encontro improvável mas inevitável e a partir daí tomou conta das nossas vidas. Temos o privilégio de uma vida plena, com algumas preocupações mas muitas mais alegrias. Tudo o que começa acabará um dia mas tenho esperança que o futuro não seja assim como o imagino, que esta imagem que pintei seja apenas uma interpretação desajustada daquilo que vejo de fora, que aquilo que se constrói ao longo da vida em conjunto tenha um impacto no longo prazo. Seja como for, concluo que não me resta alternativa. Não vou tentar metamorfosear-me ou parar o tempo - em ambos os casos estaria condenado ao fracasso.

Nuno

10.6.12

devia ter filmado

A seguir ao jantar a nossa kiki aceitou a minha sugestão e trouxe o quadro para a sala para treinar a escrita em português. Que delícia, a forma como pega na difícil caneta de ponta grossa e a desliza pelo quadro uniformemente, do princípio ao fim da palavra, unindo as letras com pernas e braços retorcidos como ensinam na escola, enquanto entoa sílabas e sons complicados a meio tom para decidir que opção seguir na escolha das letras de sons ambíguos, tão comuns na nossa estimada língua. A perfeição na forma só teve par na correcção vocabular, até em palavras de razoável nível de dificuldade. Para quem ainda nem começou a aprendizagem da leitura na escola o feito é fenomenal. Já domina por completo a lógica de construção da palavra a partir dos sons, admitindo por defeito - reflexo da aprendizagem em várias línguas em simultâneo - que a pronúncia é enganadora e pode encapotar todo o género de ortografia.

Ao vê-la debater-se entendo melhor os estrangeiros que comentam que soamos russos. Atrapalha-se frequentemente com os aa que parecem ee, os ss que também podem ser cc, os hh a seguir a nn e ll, e tantas outras peculiaridades que confundem todos aqueles que se aventuram pela primeira vez pelos meandros do português - e muitos que julgam dominar a língua. A título de curiosidade, o nosso insaciável Diogo questionou-me recentemente sobre a aplicação do à e do há, uma das principais fontes de erro na escrita. Tentei apresentar-lhe uma maneira relativamente simples de se lembrar mas duvido que tenha conseguido reter.

Andava ela ocupada com tais afazeres e o campeão aplicava-se a declamar uma poesia que a professora mandou como trabalho para casa. Ontem pediu-me para deixar para hoje e, quando lhe perguntei de quanto tempo pensava precisar, respondeu com segurança que 15 minutos bastariam. Sem razão para desconfiar das suas capacidades a este nível, acedi mas registei. Sem grande surpresa, foi ainda mais longe e memorizou as 20 linhas num terço do tempo a que se tinha proposto. Disse-a com hesitações e umas quantas falhas de menor importância mas disse-a por inteiro. Por dentro enchi-me de orgulho pelo brilhantismo mas achei que devia aproveitar para lhe deixar mais uma pérola de sabedoria parental. Confrontei-o com a falta de esforço colocado no trabalho e com os erros decorrentes. Perguntei-lhe qual era o resultado que esperava se a dissesse assim na aula e qual seria se tivesse aplicado mais algum tempo no estudo. Acabou por concordar comigo, voltou para o quarto durante mais uns minutos e regressou de bom humor, assegurando-me que estava bem aprendida. Desta vez disse-a sem falhas ou hesitações. Dei-lhe parabéns entusiasmados e pedi-lhe novamente para se lembrar do valor da dedicação e da concentração.

Nuno

Miaou


Não tão bem, mas as vezes que se faz este dueto cá em casa.

Patrícia

cromos

Empilhados sobre a cama, esquecidos no chão, atafulhados no bolso exterior da mochila, encarquilhados nos bolsos do casaco, os cromos de futebol dominam o imaginário dos rapazes nas vésperas das grandes competições. Colados à pressa, na ânsia expectante de encontrar um tesouro no próximo pacote, escapam da mão e fixam-se nas paredes desenhadas em forma de moldura numa desarmonia estética em que uns compensam à direita o desvio esquerdino dos vizinhos e o todo ganha uma dimensão muito mais viva, muito mais humana, do que jamais seria possível numa página de figurinhas alinhadas.

Primeiro a compra, arrancada a ferro aos pais, que finjem não perceber o encanto daquelas minúsculas fotografias autocolantes de jogadores de futebol e vendem cara a renúncia às moedas soltas e esquecidas no fundo dos bolsos. Astutos, aproveitam-se do desespero dos garotos para lhes arrancar promessas de bom comportamento, esforços sobre-humanos nas escola e outras juras solenes que noutras alturas tão difíceis são de conquistar. Já eles, os mais pequenos, cruzam os dedos atrás das costas e desbobinam intenções honrosas, confortados pela confiança na boa natureza dos adultos, que certamente já terão esquecido estas combinações quando for altura de cumprir.

Com o investimento inicial a caderneta ganha peso e densidade. À medida que as caras plastificadas ocupam disciplinamente os seus devidos lugares, os pequenotes incham de orgulho por possuirem os seus heróis gladiadores e vibram na antecipação da inveja indisfarçada dos colegas quando chegar o momento das trocas. Fazem listas, contam espingardas, apuram conquistas, angustiam-se perante a exigência da tarefa e concluem precisar de mais apoios parentais - conhecidos na gíria por paitrocínios - para terem quaisquer hipóteses de sucesso. Embalados pela esperança de novas vitórias mas assombrados pelos fantasmas das rondas anteriores de negociação, desenham estratégias inovativas de vendas, empenham poupanças pessoais, descontam créditos futuros e desfazem-se em benévolas intenções perante familiares e conhecidos.

Pouco a pouco acumulam-se os repetidos, fonte de frustração ao abrir as carteirinhas mas que mais tarde tão úteis se revelam para a troca com outros coleccionadores. Em pouco tempo a pequena amostra de duplicados transforma-se numa montanha de autocolantes que forma dupla com a lista de exemplares em falta e acompanha em permanência o coleccionador. Tudo tem que estar permanentemente preparado para a troca, o verdadeiro momento-chave das colecções de cromos. Sem regras expressas ou pré-definidas, o processo tem contudo uma linearidade temporal fascinante. As colecções mudam, as gerações sucedem-se, as geografias variam, mas a essência da troca mantém-se inalterada. Pequenas idiossincracias à parte, os coleccionadores reconhecem de forma instintiva a lógica da troca de cromos e adoptam inconscientemente os mesmos comportamentos ancestrais que conduziram inúmeras gerações anteriores a triunfos gloriosos na arte do coleccionismo.

À medida que se aproxima a competição, aumenta a pressão para completar a colecção. Em simultâneo, não obstante a compra compulsiva de novas carteirinhas e os resultados brilhantes nas trocas, a dificuldade para obter os cromos em falta cresce exponencialmente. Em mercados de trocas mais sofisticados, os cromos têm cotação individual e os exemplares mais raros valem múltiplos - por vezes dezenas - dos comuns. Mesmo nos ambientes mais simples, em que por princípio prevalece a amizade e todas as unidades têm valor idêntico, a competição pelos mais raros é feroz e suscita com frequência dilacerantes conflitos de interesse. Todos querem ser o primeiro a acabar, ninguém quer ficar para trás na corrida ou deixar passar a competição com a caderneta incompleta. Imagine-se o pesadelo de assistir a um jogo sem poder consultar toda a informação sobre os jogadores em campo.

Consciente dos efeitos potencialmente devastadores de tal privação, a Panini - empresa responsável por estas colecções - inventou um mecanismo que permite aos coleccionadores encomendar os cromos que faltarem para completar a caderneta, com quantidade limitada a um máximo de 50. Para além desta, há outra escapatória bem conveniente para o coleccionador desesperado: a aquisição em feiras, lojas especializadas ou bancas de rua de cromos individuais, escolhidos a dedo a troco de um pequeno valor acrescentado.

Quando eu era pequeno o meu pai só me levava a estas bancas quando me faltava uma quantidade muito pequena de cromos para acabar - não consigo recordar-me ao certo mas tenho ideia de serem números inferiores a 10. Durante semanas trazia-me carteirinhas de surpresa, sem avisar e sem me permitir criar expectativas. Depois deixava-me trabalhar nas trocas até achar que eu já merecia acabar. Aí sim, bem no fim, quando já ninguém na escola estava a trocar pois todos tinham acabado havia muito, íamos juntos comprar os que faltavam. Adorava esses momentos. Ficava tão orgulhoso da minha caderneta que tanto me tinha custado a completar. Comparado com os meus colegas, que compravam caixas inteiras de carteirinhas de uma assentada, ficava sempre para trás. Mas nunca me importei. Sempre achei que a minha era a maneira certa de fazer uma colecção.

Isto tudo a propósito da caderneta do Diogo, amplamente patrocinada pelos avós. Para além das incontáveis carteirinhas que o menino recebeu por correio e que lhe permitiram progredir na colecção com grande rapidez, na semana passada foi brindado com um pacote que continha nada menos que 178 cromos seleccionados da sua lista. Graças a este impulso extra, de uma assentada completou várias equipas, ficou com apenas 38 unidades em falta e ganhou uma série de repetidos fantásticos com os quais poderá facilmente atrair os restantes através das trocas. Está radiante, como é fácil de imaginar. O pai confessa que se divertiu a ajudá-lo na colagem mas guarda sentimentos mistos - que colecção é esta em que o sucesso chegou por magia?

Nuno

8.6.12

desconhecido

Eis-me aqui de novo, com esta tralha toda para enfiar na mala. Conheço de cor a lista por ordem de prioridade: artigos de higiene, roupa para as reuniões e depois o resto, variável em função do que se espera que aconteça. O mais incrível é que a realidade corresponde de facto às expectativas e pouco se encontra de inesperado nestas pseudoaventuras. Vez após vez tudo se repete, sem que o tempo ou o espaço pareçam ter qualquer capacidade de intervenção.

Concentro-me na tarefa em mãos. Pasta de dentes, botões de punho, gravatas com significado... O pânico de esquecer alguma coisa essencial e dar por mim no dia da reunião em condições menos do que perfeitas. O segredo do sucesso nestas missões é a preparação. Todos os detalhes contam, a primeira impressão é eterna e grande parte da ilusão está na apresentação. Pelo menos foi isso que sempre me ensinaram. Diria antes pregaram, como parte dessa cínica lavagem cerebral a que se sujeitam todos quantos se entregam ingenuamente ao mundo corporativo.

Fecho a mala a cadeado, guardo na mochila os artigos essenciais para o caso de extravio de bagagem - pequenas manhas de quem desperdiça demasiado tempo em aviões e aeroportos - e chamo o taxi. Tudo muito eficiente, optimizado por inúmeros binómios tentativa-erro. Se me aplicar consigo começar a fazer a mala uma hora antes da partida e ainda chegar à porta de embarque sem pressas. Só não consigo deixar de questionar o valor de tais competências para a minha afirmação enquanto indivíduo. Tirem-me estas rotinas, obriguem-me a estar quieto, e deixo de fazer sentido.

O movimento importa só por si. O destino, por mais pequeno e imediato que seja, dá-nos propósito e preenche ilusoriamente a nossa necessidade de significado. Por isso estrebuchamos freneticamente - viajamos compulsivamente só para descobrir que regressamos iguais, esgotamos dias preciosos em compras inúteis, esperamos ansiosamente por eventos aleatórios e resignamo-nos a relações fictícias em redes sociais - só para não sentir o peso do aqui e agora. O rato na gaiola corre satisfeito na roda enquanto o gato observa tranquilo.

Saio do taxi e entro no aeroporto directo à portada dos passageiros frequentes. Não olho para ninguém, economizo palavras e gestos, procuro passar incólume pelo abjecto processo de controlo. Graças aos truques e artimanhas do costume estou do outro lado em 5 minutos. O lounge perdeu exclusividade e não passa agora de um incómodo disfarçado de requinte. Refugio-me no canto de um café perto da porta de embarque e espero pela última chamada - era o que faltava ver-me preso na manga de acesso entre dezenas de outros passageiros só porque o pessoal do aeroporto quer tudo arrumadinho para poder tratar do próximo vôo.

No princípio incomodava-me a perspectiva de alguém se sentar no meu lugar, de não ter espaço de arrumação para a mochila ou de chamarem o meu nome. Entretanto fui perdendo o pudor - se ficar para o fim não espero na fila, tenho mais hipóteses de ser promovido para a executiva, os assentos estão nominalmente reservados e as hospedeiras arranjam sempre espaço para a bagagem de mão. Agora deixei de perceber as pessoas que fazem fila para entrar, como se com isso conseguissem partir mais depressa ou arranjar um lugar melhor.

Aterrado e estacionado o avião, observo agora a segunda parte do puzzle: por que razão se levantam os passageiros com tanta pressa no final de um vôo? Consigo perceber que queiram esticar as pernas ou aliviar a tensão depois de tanto tempo fechados num túnel volante. Só não entendo o acotovelamento para tirar as malas e para se dirigir para a saída, sobretudo para quem ainda tem que esperar um bom tempo pela bagagem de porão - isto quando não há controlo de passaporte.

No aeroporto do destino entrego-me pacificamente à sorte. Cada um é diferente do anterior, as regras são dinâmicas e os locais têm especial prazer em atormentar estrangeiros com manias. Por isso procuro incluir no meu planeamento de viagem tempo suficiente para procedimentos de entrada e de recolha de bagagens. Uma vez chegado, adopto um low profile, respondo a quaisquer perguntas com tranquilidade e afasto-me com veemência e sem contemplações de todas as propostas que não entendo. Antes passar por nabo do que cair nas mãos de vigaristas.

Chegado ao hotel, a rotina inverte-se: tirar da mala, engavetar, pendurar. Não sou de forma alguma maníaco das arrumações mas dita a experiência que os 3 minutos que isso me custa à chegada poupam-me muitos mais de preparação para a reunião. Quanto ao resto da estada, apenas as guerras do costume sem surpresas de maior. No final completo o ciclo com o regresso, no qual tudo se passa na exacta medida inversa da vinda.

Até ao próximo vôo, num perpétuo movimento de partidas para lugar nenhum.

Nuno

7.6.12

conversão

Ícone máximo do movimento ecológico global e referência absoluta no estabelecimento de políticas energéticas sustentáveis, a bicicleta é também um dos traços mais marcantes da vida em sociedade aqui na Holanda. Se a colossal quantidade de veículos não motorizados em circulação impressiona à primeira vista, a verdadeira causa de espanto a longo prazo é a atitude colectiva em relação à mesma.

Apesar de já contar alguns anos disto, ainda deixo escapar um sorriso à vista de um novato incauto surpreendido por uma reprimenda furiosa ao tomar a pista das bicicletas por passeio. Ainda me lembro de me sentir igualmente perdido nos primeiros tempos, habituado à simples distinção dual entre carros e o resto e quase atropelado em diversas ocasiões por ciclistas indignados com a minha falta de atenção. Hoje as tais faixas reservadas aparecem-me instantaneamente com a nitidez de uma pista de descolagem de um aeroporto internacional iluminada à noite.

Os números só por si são estonteantes. Fiz uma pesquisa rápida na internet e estimativas actuais apontam para algo como 18 milhões de bicicletas na Holanda, ou seja uma média de 1,1 por pessoa. Ainda que todos - incluindo bebés, idosos, doentes, etc - efectivamente se deslocassem em bicicleta, sobrariam 2 milhões sem uso. Isto não surpreende minimamente quem as vê por aí atiradas, em estado avançado de degradação, encostadas nos passeios a bloquear o caminho de transeuntes, penduradas de pontes pelas correntes ou mergulhadas na água dos canais.

Estou convencido que o sistema, bem concebido na sua origem, se perverteu pela prática. Dito assim soa redundante, quase chavão, pois tal é a natureza de todos os sistemas. O que pretendia dizer é que um bem puro, inquestionável - um meio de transporte rápido, limpo e saudável - tem uma faceta negativa menos visível decorrente da mais elementar natureza humana. Como muitos antes de mim já argumentaram, o ser humano não sabe conviver com a ordem, precisa do caos para entender o mundo em redor.

Estou convencido que as cidades holandesas já se debatem com um problema a este nível. Por mais que os trabalhadores das câmaras municipais abatam veículos que evidenciam falta de manutenção prolongada, o ritmo da chegada de unidades novas ao mercado é estarrecedor e mina qualquer tentativa de planeamento urbano. Promoveram as bicicletas como alternativa ao carro, pergunto-me se não está na altura de refrear os ânimos, impondo regras mais apertadas à circulação - os atropelos às mais elementares regras de trânsito são contínuos - e multando o estacionamento indevido.

Se algo não for feito os passeios tornar-se-ão rapidamente vias alargadas de bicicletas, privando os pedestres de espaço e as ruas comerciais e habitacionais de uma fonte essencial de vida. Percebo que para os holandeses, nascidos e criados ao ritmo das pedaladas, caminhar seja um meio arcaico de deslocação - noto a incompreensão nas suas vozes quando comento que fui a pé de casa para o trabalho num percurso de meia hora - mas a meu ver, ruas sem pedestres são tristonhas e ocas.

De qualquer forma, eu ciclista convertido me confesso. Demorei uns anos a admitir mas não há como escapar à conveniência.

Nuno

6.6.12

prego à beira-rio

5 da tarde de sexta-feira e vagueio sem planos concretos para o anoitecer. Fiquei de emprestar um par de mãos a um amigo empreendedor lá mais para a noite. Gelados caseiros à sombra dos pastéis de belém é uma ideia ousada e por defeito ou deficiência apoio incondicionalmente a ousadia. Não hesitei portanto em disponibilizar-me para o que precisasse. Hoje cabe-me acartar caixas de gelados entre o camião e a câmara frigorífica, quem sabe o que amanhã me reserva.

Sem queixas contudo que isto de ter amigos é um luxo. Este em particular é esquivo e alheado mas tem o dom de aparecer em momentos críticos, sempre carregado com doses extra de energia e confiança. É uma daquelas pessoas com brilho natural. Vezes sem conta o vi mergulhar de cabeça para desafios arrepiantes e voltar à superfície com tons de veraneante em dia de céu azul. A verdade não é essa e bem sei o que lhe pesa mas tal é a marca dos guerreiros.

Mas divago. Ia falar sobre as minhas deambulações enquanto espero pelo serviço das 9. Eis-me em belém de t-shirt numa tarde de céu encoberto e vento cortante. Seduz-me a tentação do regresso a casa para o conforto do sofá mas a cabeça está quente e o rio chama por mim. Quando morava aqui nunca lhe dediquei especial atenção, sempre fui homem de mar e fugia para junto dele assim que podia. Agora faz-me falta o rio, talvez por simbolizar tudo aquilo que deixei para trás.

Enquanto atravesso a estrada paro por instantes no cimo da ponte para contemplar o movimento incessante do trânsito e imaginar-me reintegrado na dinâmica diária da cidade. Passei a ser um turista em casa própria e debato-me com a incapacidade de sentir a cidade como minha. Ao fim de uns minutos desisto e completo a travessia, desabando desconsolado sobre um dos bancos plantados na margem do rio para amparar peregrinos metropolitanos.

Aí me deixo ficar por longos momentos, extasiado perante tal cenário de indiferente melancolia. Assaltam-me então memórias antigas, de tempos em que a cidade era minha sem que eu o soubesse. O mais difícil nestas aventuras pelo passado é controlar o fluxo, fechar a torneira. Uma torrente de emoções toma conta de mim e transporta-me para um mundo distante mas tão parecido com este. Nele só eu sou diferente, só eu mudei.

Forço-me a esticar as pernas e fazer força. Tenho que andar. Mas o banco prende-me e puxa-me de volta para o lugar. Eu não pertenço mais aqui, digo-lhe. Ignora-me e continua. Que mais há-de fazer se tal é o seu propósito. O mesmo se aplica a mim então. Com um encontrão súbito levanto-me e afasto-me sem olhar para trás. Dirijo-me à ponte lá ao longe. Quero vê-la de perto e sentir a sua força.

Quando lá chego tudo faz mais sentido. O zumbido dos carros a passar pelo tabuleiro metálico, os comboios no tabuleiro inferior, o cristo-rei ao fundo. Consigo perceber novamente o conjunto da cidade, aos poucos volto a pensar como lisboeta. Assustado, retomo o passo em sentido contrário e acelero de regresso a belém. Não posso dar-me ao luxo de pensar nestas coisas agora, preciso de comer antes do embate da noite.

Quero um prego no prato e uma imperial. Desejos de emigrante habituado à força a sabores pobres e desinspirados. Mas não vou tolerar um ambiente sofisticado. Fujo portanto das ruas principais e procuro um beco qualquer onde se aloje uma tasca discreta. Não é difícil, esta é uma zona clássica onde o simples continua a ter lugar. Sento-me ao balcão e digo ao que venho.

5 minutos depois, o empregado coloca, de forma discreta e eficiente, a refeição à minha frente. Exactamente como a imaginei, sem que houvesse necessidade de explicar ou sequer trocar palavras excessivas com fosse quem fosse. No final paguei por tudo o que em Amesterdão pagaria apenas por cerveja e café. A beleza de estar em casa.

Nuno

5.6.12

Lx 3d

Por extenso, 3 dias em Lisboa para recuperar forças, ganhar inspiração para os tempos que se avizinham e tratar de negócios.

Como não podia deixar de ser, planeei esta pequena escapadela com suficiente antecipação e cuidado, negociando datas e duração com toda a família para evitar incómodos ou melindres. Isto porque não sou obviamente o único a apreciar estes saltinhos a casa e ninguém gosta de ficar para trás. Mas devo admitir que tudo se passou com muito mais tranquilidade do que esperava à partida e ninguém objectou ou interferiu.

Feitas as contas e após alguns ajustamentos forçados pelo calendário de reuniões, acertei as datas para chegar na quarta-feira à noite e regressar sábado à tarde. Tudo somado, 2 dias úteis completos para uso misto e meio dia de fim-de-semana para tempo dedicado aos pais. Dita a experiência que esta é a fórmula mágica pois satisfaz sem enjoar visitantes e visitados.

Lisboa lá estava, nos seus sítio e disposição costumeiros. A minha cidade tem o condão de envelhecer  tranquila e indiferente às vaidades vãs de nativos e turistas, como uma árvore velha que assiste enternecida às idas e vindas de gerações de esquilos e ri em silêncio quando casais de namorados escrevem promessas eternas de amor na casca.

Assim é comigo, que vou e ao voltar encontro sempre à minha espera os mesmos cheiros, sons, cores, sabores. Esta sensação de conforto primordial é inacessível a todos aqueles que vivem em casa pois nasce justamente do desconforto que a saudade, no seu jeito de camisa de forças emocional, provoca em quem se atreve a afastar-se do ninho.

Há muito me pergunto se tem mais valor o prazer doseado do dia-a-dia ou o gozo intenso espicaçado pela ausência. Ao fim destes 6 anos continuo a não ter resposta concludente para esta pergunta mas talvez a comparação seja simplesmente impossível pois seria preciso isolar estas sensações de todas as outras e medir níveis de (in)satisfação, (in)felicidade e afins. Seja como for, a diferença intuída é notória e massiva.

Porque tudo segue imutável neste ambiente onde cresci, o país e os seus actores convertem-se involuntariamente em referência absoluta daquilo que fui e permitem-me observar mudanças próprias. Sem que consiga precisar o teor ou o valor destas mudanças, sinto que deixei muito de mim para trás quando saí e que preenchi esses espaços vazios com influências forasteiras. Acima de tudo reparo que cresci muito e que a minha compreensão do mundo se alterou irreversivelmente.

Depois de 3 dias a tentar imaginar-me de regresso, continuo sem perceber se perdi de vez a ligação à terra onde nasci.

Nuno

4.6.12

até 1000

conta a nossa kiki com 6 anitos em Francês e Português. Em Inglês e Holandês não tem investido tanto, confesso que não sei até onde vai.

Nas aulas só esperam de meninos desta idade que saibam contar até 30. Por isso a professora, tão caracteristicamente quadrada, manda-a parar quando ela se entusiasma e avança lampeira pelos trinta-e-tais. Na mesma turma há várias crianças (algumas com pais franceses) que apresentam dificuldades em contar até 20. Ou em escrever o seu nome, enquanto a nossa pequenota já se aventura pela leitura em várias línguas.

Quando confrontamos as professoras com tal disparidade desaconselham saltos nesta altura e asseguram-nos que ela é desafiada e que conseguem gerir os diferentes ritmos dentro da turma. Já os pais dos alunos mais fracos queixam-se da exigência excessiva das aulas e da preferência dada aos alunos mais fortes e perguntam-nos (por iniciativa própria e sem que alguma vez tenhamos partilhado com eles as nossas interrogações a este respeito) com frequência se pensamos pedir para ela saltar um ano.

Ao rever a minha própria experiência escolar, relembro diferenças notórias de nível entre alunos da mesma turma. Tal era comum e reflectia-se com naturalidade nas notas. Ao longo de 13 anos de escolaridade pré-universitária no liceu francês conheci muitos alunos brilhantes mas não recordo qualquer caso de passagem dupla de ano. Pensar assim tranquiliza-me em relação ao caso da kiki.

De qualquer forma sabemos que ela não quereria saltar e que o seu equilíbrio emocional na escola é precário e depende da presença daquelas amigas nucleares que foi criando ao longo destes anos. Por isso ficamos atentos mas deixamos andar, pelo menos enquanto estivermos convencidos que é desafiada.

Nuno

Diogo o navegador

O nosso campeão continua a frequentar as aulas de vela aos domingos à tarde. Nem sempre a vontade é grande mas tem consistentemente optado, sem que para tal os pais tenham que incentivá-lo, por silenciar o queixume e dedicar-se com disciplina às artes marítimas.

Graças a essa concentração, passou para o nível 2 à primeira tentativa e é já capaz de comandar um Optimist - um tipo de barco de peso e dimensões reduzidos, ideal para a aprendizagem - totalmente sozinho, a favor ou contra o vento. Isto tudo sendo dos poucos (quem sabe o único) aluno que não detém qualquer experiência anterior ou antecedentes familiares nestas lides.

Contrariamente ao que acontecia no nível 1, venho reparando que ele agora termina as aulas muito cansado, situação atípica no nosso incansável Diogão. Na aula passada perguntei-lhe o que se passava e comentou que tem que se esforçar muito fisica e intelectualmente para acompanhar as exigências das lições pois vários colegas estão muito mais adiantados nos conhecimentos.

Desta vez a coisa foi ainda pior: não foi devidamente equipado para fazer face à descida da temperatura exterior e à chuva, pelo que passou mais de 2 horas encharcado e gelado no meio do lago sem que as instrutoras lhe dessem quaisquer tréguas. Ele e os outros todos, que o pessoal aqui não está para mariquices. A meu ver bem...se levar um barco para o mar não pode ter medo do frio ou da água. Mas tem que ir bem equipado, lição que espero que tenha aprendido.

Tirando estas lições para o futuro, a verdade é que estava desolado quando cheguei lá para o buscar. Para além do sofrimento já descrito, teve ainda o infortúnio de apanhar com o mastro na cabeça quando uma onda formada por outro barco o desequilibrou. E, para coroar tamanha infelicidade, verificou ao desembarcar que niguém o esperava em terra para o confortar (pela primeira vez em todas estas lições eu tinha decidido aproveitar o tempo para ir às compras).

Fez-me cara de mau - cuja razão não consegui decifrar naquele momento - mas arrumou todo o equipamento como instruído e foi lá dentro com os outros guardar a tralha sem hesitações. Foi só ao regressar cá para fora, e enquanto tentava contar-me o sucedido, que cedeu ao desespero e deixou cair uma pequena lágrima.

Como começou parou, respirou fundo e foi de novo lá dentro para trazer a mochila. Aí já com renovada energia para se zangar comigo por não estar lá para o acolher. Ao chegar ao carro trocou de roupa e prometeu ir para a cama assim que chegasse a casa. Mas ao chegar, retemperado por um banho quente e um lanche, ainda teve força para uns jogos na playstation e umas gargalhadas no skype com os avós.

Filho, se um dia navegares num veleiro algures pelo mundo lembra-te destes princípios desafiantes e dos pais chatos que descobriam estas actividades e te estragavam as tardes de domingo com tais transtornos.

Nuno

kikizices

Mais uma saída da nossa kiki de 6 anos de nos deixar de queixo no chão.

- Pai, se o Domingo se chamasse Sábado continuava a ser Domingo, não era?

- Era...a rose by any other name would still be a rose. Percebes o que isto quer dizer?

- Sim...uma rosa com qualquer outro nome continuava a ser uma rosa.

Estarrecedor.

Nuno

3.6.12

O regresso

4. Todos nascidos em Portugal. Há mais de 5 anos a viver fora. A Kiki não tem recordação do que é viver (salvo férias) em Portugal, tão pouco foi o seu tempo lá. O Campeão veio mais velho mas já viveu mais de metade da sua vida fora de Portugal. Eu e o Grandalhão – perspectivas e sentimentos diferentes.
A nossa emigração continua a ser um tempo de indecisão, de instabilidade e angústia. O tema regresso e a reinserção no nosso país natal, é um assunto de permanente debate nesta casa – e já agora para que fique claro, na da grande maioria de todos os muito expatriados/emigrados que conhecemos).
O regresso é um tema difícil e complexo. Envolve a tentativa de conciliação das vantagens do reagrupamento familiar e da manutenção (ou consolidação) da identidade (e dos laços com o país natal). O regresso poderia ser de interesse para o país, afinal torna possível a recuperação de trabalhadores qualificados... mas em Portugal, nesta fase, aconselham-se trabalhadores a sair. Será possível, em contra-cíclo, regressar em condições económicas minimamente interessantes? Em que momento (para minimizar o impacto nos pequenotes, para as carreiras)?
Estudos revelam que portugueses de segunda geração (que emigraram com menos de 16 anos), raramente optam por regressar. Os nossos filhos contrariam essa ideia – questionam-se sobre o porquê de viverem longe da família e afirmam, vez após vez, que ˝quando forem grandes˝ vão viver para Portugal. O Campeão, nesta fase, debate-se sobre se será matemático ou diplomata... português. Até quando?
E como seria uma reinserção? Familiar – crescemos. habituámo-nos a viver sózinhos, ao nosso espaço, a outros hábitos. Profissional – também neste capítulo passámos a agir de forma diferente, temos (ou tenho) outra perspectiva e expectativa – onde nos enquadrar? Concerteza posso/devo ajudar mais neste momento de crise (não apenas com as confortáveis remessas de emigrante bem como na promoção de Portugal fora). Social – não podemos ter ilusões também neste capítulo.
O que esperamos? Como manter este espaço internacional que conquistámos? O que esperam de nós?
Existe um fosso enorme entre o sonho do regresso e a sua concretização. Como existia também quando decidimos emigrar...
Enfim, um desabafo sobre o nosso debate constante sobre a disponibilidade de regressar a Portugal (ou muitas vezes de partir para outras bandas), se e quando, o momento chegar.
Patrícia

O meu luxo

Há luxos que são só para alguns! E este é o meu.Os filhotes celebram três dias da Mãe: o português (primeiro domingo de Maio); o holandês (algures a meio de Maio); e, hoje, o francês.

O Di acordou-me as 7 da manhã para me dar a prenda que andava a esconder desde sexta feira. Não vai dar para pôr no meu ˝muro dos mimos˝mas vou achar um local de destaque!



Patrícia

A girafa do Di















Não tem um ar tão patusco?



















Patrícia

Centro de recolha, separação e reciclagem de lixo

O Campeão foi, com a escola, a um centro de recolha, separação e reciclagem de lixo em Amesterdão.  Falaram sobre o problema do lixo, da separação do mesmo e da sua reciclagem (um tema que muito tem interessado a Kiki ultimamente).


Curiosamente na Holanda aposta-se mais na separação do lixo por parte destas empresas do que por parte da população em geral. Há os famosos (e fantásticos) contentores que são colocados dentro do solo (e diariamente despejados com contentores e máquinas super especiais). Separa-se papel, vidros e o resto vai para o lixo geral. Ha ainda a recolha de oleo uma vez por semana – em Portugal vê-se mais diversidade nos contentores (apesar de uma vez ter asissistido, muito indignada, à descarga de diferentes contentores para o mesmo camião).

Disseram os senhores que os meninos se portaram espectacularmente bem – mas o Grandalhao, que os acompanhou, pode contar mais detalhes. Nao resisto ao comentario sobre o comportamento... Pudera! Os senhores estão habituados aos meninos holandeses, a quem tudo é permitido.

Patrícia

Brincadeiras da Kiki – 2




A nossa Palhaçinha.

Patrícia

Brincadeiras da Kiki - 1

Pobre gata… foge da Kiki quando a vê porque ela adora pegar-lhe e fazer-lhe travessuras. Nesta, a gatinha até ficou ˝uma graça˝.



Patrícia

29.5.12

pré-adolescência

Talvez a título de aviso para quem se prepara para cuidar dele no Verão, talvez como desabafo por já ter um filho à beira dos 10 anos, ou provavelmente porque quero tomar plena consciência do começo desta nova fase da vida do nosso filho e de todas as suas implicações.

O nosso Diogão, Campeão, Diogurte, Pirata, Didi, Fifio, Diôgô, Dióurróu (e outros tantos de que agora não me recordo mas que mais tarde completaremos em conjunto) está em avançada fase de pré-adolescência, com todos os sintomas conhecidos em plena evidência: despassarado, despachorrado, amuado, bruto, hipersensível e rezingão.

Ontem, pela primeira vez na vida, não queria jogar à bola comigo. Diz que sou nabo (algo que não contesto) e que só quero fazer passes, enquanto ele quer marcar golos. Foi sozinho para o parque à procura de companheiros - incentivado por mim, pois isto de ser pai de pessoal crescido tem destas contradicções - mas, face à ausência de actividade futebolística na zona, lá acedeu a dar uns toques comigo e acabou por se divertir.

Felizmente ainda só estamos na pré- e, no meio do remoínho de emoções, o nosso Diogo continua a vir à superfície com frequência. Quando menos se espera solta uma daquelas gargalhadas tão únicas, dá-nos um abraço sentido, larga um gosto de ti casual ou passa a tarde com a kiki a preparar um espectáculo para nós.

Espero que, quando chegar de vez a adolescência, não desapareçam esses momentos. Como pais, sabemos bem o que nos espera e o papel que nos cabe. Mas há sempre a esperança de que os nossos sejam daqueles mais calminhos e de que nós tenhamos sabido e continuemos a saber cultivar neles o gosto pelo tempo passado em conjunto.

Nuno

28.5.12

Século passado

Kiki – Mamã, nasceste em dois mil e quantos?

Eu – Tu (e o mano) nasceram em dois mil. Eu nasci em mil e novecentos. Sou do século passado.

Um frase esquisita, pensei. Olhando pela positiva, já vou tendo alguma bagagem.

Patrícia

27.5.12

Churrascos em casa do John

Não são muitas as noites em Amesterdão em que pode andar só de vestido à noite. Quando essas noites coincidem com o fim de semana e o nosso amigo John resolve fazer os churrascos ao estilo da África do Sul, as noites são uma delícia.

Conversa animada, gin tónico e/ou um vinho, os pimpolhos todos a sirigaitar pelo jardim e pela casa, as brasas, o fumo e cheiro a churrasco da carne a grelhar. Só a temperatura e a possibilidade de estar na rua. A ida e regresso de bicicleta, em família.

Lava-me a alma.

Patrícia

20.5.12

Champions League Final 2012 – Bayern Munique vs. Chelsea

O Di é louco por futebol e por isso resolvemos deixá-lo convidar alguns amigos para assistirem com ele à Final da Liga dos Campeões.

Vieram 5 e chegaram antes do jantar. Foram dar uns toques na bola, depois fomos buscar pizzas e preparámo-nos para o jogo.

Apesar de não haver nenhum alemão ou inglês no grupo e as origens dos meninos serem bem diversificadas (o nosso Di que é claramente português, um irlandês/japonês nascido na Holanda, um francês/holandês nascido em França, um francês/holandês nascido na Argentina, um Belga/Turco e um Serbo-Croata/Americano), estavam todos pelo Chelsea (menos eu que torcia pelo Bayern). O início do jogo foi bastante aborrecido.

Ficou tudo muito desanimado quando aos 83 minutos o Bayern marcou... E loucos de alegria quando o Drogba, pelo Chelsea, empatou aos 88 minutos.Seguiu-se o inevitável prolongamento e depois os penalties. A tensão na sala era grande.


Ficaram muito contentes com o resultado porque o Chelsea ganhou. Pela primeira vez.

O Di pediu aos amigos que assinassem a sua caderneta do evento, para se lembrar desta final.

Agora vamos prepararmo-nos para o Europeu 2012 que está já à porta. A paixão do Di por futebol inspira alguns amigos que, não sendo europeus torçem, em pura solidariedade com o Di, por Portugal. A ver vamos.
Outro plano que convém não perder de vista é o de ver a Final da Liga dos Campeões no Estádio da Luz, em 2014.

Patrícia

Sushi

Na quinta-feira foi feriado por estas bandas e fomos convidados para um jantar em casa de uma amiga japonesa.

O jantar foi sushi e quem o preparou fomos nós com a excepção do arroz, que já estava pronto. O que tínhamos de fazer era por arroz, peixe e vegetais e enrolar o papel da alga.


E depois cortar.


Ficou delicioso. Agora há que comprar os ingredientes e experimentar em casa – suspeito que vá ser bem mais difícil...

Patrícia

18.5.12

Dia da Mãe

Debaixo da almofada dois envelopes com dois postais...


O azul, escrito pelo poeta mais doce do mundo.


O vermelho, pela menina mais querida de todas.



Da Mãe mais parcial do Universo.

Patrícia

13.5.12

Berlim

Esta semana estive 3 dias e duas noites em Berlim para uma conferência de uma Big 4. Viajei depois do dia de trabalho e aterrei em Berlim (Tegel) por volta das 10h da noite. Aeroporto típico de cidade antiga, antigo também ele (nada de mangas e a usarem autocarros para levar os passageiros do avião para o aeroporto), perto da cidade. Apanhei um táxi e indiquei o hotel (no qual me tinha registado através da conferência mas do qual nada sabia).

Boa surpresa quando o taxista pára, a não mais de 300/400 metros da famosa imagem de Berlim, a Porta de Brademburgo. Fiquei contente e obviamente, após o check in no hotel e ter deixado a mala no quarto, ainda voltei à praça para ir ver a dita Porta de perto.

O hotel Adlon Kempinski, é também um dos ícones de cidade. Mesmo junto à Porta de Brademburgo e junto ao Reichstag (que alberga o parlamento alemão). O hotel abriu as portas em 1907 tendo servido o último imperador germânico. Fazia parte da rota dos famosos nas décadas 1920/1930. Em 1945 foi destruído e abandonado tendo sido demolido em 1984. Depois da queda do muro de Berlim, o povo de Berlim recusou-se perder o ícone histórico da cidade e em 1997 reabriu o histórico e luxuoso hotel.
O dia seguinte foi passado na conferência. Entre as 5h (quando as sessões terminaram) e a hora de partida para o jantar de gala (7h) havia algum tempo – tive de optar entre preparar-me para a gala ou ir espreitar os arredores do hotel. Ficam fotos da minha opção em baixo (e a de cima também).
A Porta de Brademburgo - um dos símbolos de Berlim cuja construção foi ordenada (juntamente com outras que entretanto foram destruídas) por um rei prussiano. Rapidamente me vieram à cabeça imagens como: Napoleão e as suas tropas a passar pela Porta em 1806; a Alemanha nazi de Hitler, com as tropas a marcharem para a revista e o líder com aquela imagem por trás; os últimos dias da segunda guerra mundial, em 1945, com as tropas aliadas a destruírem as portas; a divisão de Berlim; o muro de Berlim; a queda do muro de Berlim e a reunificação alemã. Não0 admira, a Porta está carregada de história, e nos dias de hoje simboliza a unificação alemã e prosperidade. Muito da história da Europa passou por ali.
O Parlamento Alemão – onde se decide hoje tanto do que afecta o destino do mundo inteiro.
O muro de Berlim – a barreira fisica entre a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) e a República Federal Alemã (Alemanha Ocidental), construído em Agosto de 1961 e que caíu a 9 de Novembro de 1989, 28 anos depois.
Ainda à espera do jantar tive tempo de beber uma Berliner no bar do hotel.
O jantar de gala foi numa sala do museu histórico alemão
Estava à conversa no cocktail quando fui chamada pela partner da Big 4 do escritório de Estugarda para me juntar à sua mesa (como sua cliente). Uma mesa oval com 10 pessoas – 2 (separadas na mesa, uma das quais eu) não falavam alemão, as outras 8, sim. Pode-se imaginar que a conversa se iniciou em alemão... Até que se forçou o inglês... O que cada um faz (na mesa tax partners da Alemanha e Áustria e os directores da area fiscal da Daimler e de uma poderosa empresa de escavações e contrução , experiências, muita, muita surpresa (e curiosidade) por eu ser portuguesa e um mega massacre: o que andamos a fazer; quando acordamos do século XVI; que temos demasiados doutorados (44% contra 14% na Alemanha); que vamos ter de recuar aos tempos do início da Europa industrializada.

Não foi fácil – nunca é, explicar que há razões históricas e culturais – e ter de ouvir dizer (quando a defender o argumento de que somos periféricos) que os Finlandeses também são, que espero que os Portugueses nunca se transformem em Finlandeses (sem ofensa para estes) mas que a identidade e diversidade nacional deve ser respeitada e que os alemães não podem impôr o seu modo de estar e de fazer as coisas. Acalmou o ataque cerrado, começaram a falar em Lisboa, Matosinhos e Cascais. Em como se está lá bem, e se come bem. Mas a ideia de que os Portugueses são ingovernáveis e irrelevantes (a não ser para consumir os subsídios que a Europa esforçadamente pouca e manda) é o que está na cabeça daquela gente... Diferenciam-nos dos Gregos (não vêm qualquer salvação para a Grécia), para melhor, mas somos farinha do mesmo saco.

Da Alemanha para casa trouxe... deliciosa bolas de Berlim!
Fiquei com muita vontade de lá voltar com tempo mas também preocupada com o que vem aí.

Patrícia