29.9.10

E lá fomos nós na busca dos sinais de Outono

O que descobrimos?

Bolotas e castanhas


Folhas que mudam de cor (para amarelo, castanho ou vermelho)



E que levadas pelo vento caem suavemente no chão compondo um lindo e colorido tapete. Pelo que apanhámos uns exemplares que trouxémos no cestinho.

O que os meninos fizeram depois do passeio



Patricia

26.9.10

que delícia de Outono

Ontem tivemos festa em casa. Melhor dito, um encontro de amigos. 12 pessoas entre miúdos e graúdos. Nada do outro mundo mas mais do suficiente para dar uma trabalheira a organizar.

Passámos então boa parte do dia a fazer compras, arrumar a casa e preparar os comes e bebes. Como não podia deixar de ser, os pequenotes fizeram, com mais ou menos vontade, parte destes preparativos.

E o momento mais especial do dia acabou por ser o nosso passeio de compras, aqui mesmo nas redondezas e à beirinha da estrada: com a chegada do Outono as castanhas amadureceram e muitas começam a cair, cobrindo o chão de frutos espinhosos que deliciaram a kiki e desencadearam uma série de perguntas do campeão.

Hoje o dia não está para grandes passeios. Chuva durante a noite, nevoeiro para acordar e 9 graus de temperatura convidam ao recato. Mas temos que fazer a célebre busca dos primeiros sinais de Outono. Antes que chegue o Inverno.

Nuno

23.9.10

É ou não é?

Depois de um ano de ajustamento ao ritmo da escola e às 2 novas línguas, a nossa kiki volta a descolar dos pares. Já acontecia no infantário, onde passava os dias a brincar com as meninas mais velhas, e só não foi tão visível no ano passado pois andava ocupada a aprender Francês e Inglês.

Vezes sem conta partilhámos (aqui e directamente nas escolas) as nossas suspeitas sobre as capacidades da pequenota. Mas que fique novamente claro que não temos qualquer desejo de ver confirmadas estas suspeitas, como pais nada mais queremos do que vê-los normais e integrados.

Temos no entanto que manter-nos atentos, uma mente sobredotada requer outro tipo de abordagem na escola e em casa. Continuo sem saber se ela o é, mas está a chegar a altura de descobrir de vez. Certo é que ela não é uma menina de 4 anos standard, como sempre vimos e dissemos.

E agora voltámos a ter prova disto: a nova professora (em conjunto com a do ano passado), ao fim de meras 2 semanas de aulas, confidenciou-nos que ela tem as capacidades exigidas aos alunos no final deste ano lectivo. Foi portanto posta a fazer trabalhos mais exigentes, à parte dos restantes. E isto tudo em línguas com as quais só travou conhecimento no ano passado.

A mesma professora arriscou o tema da passagem para um ano mais adiantado, desaconselhando essa hipótese por motivos emocionais. Não podíamos estar mais de acordo: a miminha não é amiga de mudanças e não reagiria bem a uma passagem para outra turma.

Mas que fazer se isto se acentuar e a diferença dela para os outros se tornar demasiado óbvia? Tenho vindo a adiar este tema porque ela é muito nova, porque detesta o desconhecido, porque as amigas são um elemento fundamental da sua segurança e porque até agora a escola tem-lhe constantemente colocado novos desafios com as línguas.

Mas o que é mais importante no desenvolvimento de uma criança? Devemos deixar isto ao critério da escola ou procurar especialistas?

Nuno

20.9.10

Acredite-se ou não

Contava o Campeão sobre uma conversa entre os meninos da escola, à hora de almoço, que se discutia a crença em deus, que muitos acreditavam mas que ele não.

Já sobre o pai Natal não tem dúvidas, pois está claro que existe. Mas não é um deus, é um senhor mágico e muito sábio porque vive há muitos anos e por isso aprendeu todas as línguas do mundo.

Patrícia

16.9.10

Dia da mamã

Pouco depois de ter chegado a Amsterdão, apercebi-me que no mercado de trabalho holandês não é muito bem aceite que mães trabalhem a tempo inteiro. E sendo mãe das mais belas pestes, resolvi que quarta-feira seria dia da mamã.

Juntava o útil ao agradável: pelo menos uma vez por mês não há aulas para os meninos às quartas feiras, e quando há é por um horário reduzido de 3 horas. Isso permitir-me-ia também acompanhá-los mais, insistir mais no português, etc. Tinha também a esperança de ter um bocadinho (as 3 horas) para afazeres que são mais fáceis despachar sem atrelados atrás ou, simplesmente, para mim.

Mas não. As quartas-feiras são, diversas vezes, os dias mais stressantes da semana. Porque trabalho para um grupo americano, porque a responsabilidade do trabalho não obedece a horários ou dias ou horas (ou eu assim o entendo). Porque por decisão da escola, tendo em conta a experiência bilingue com os menino,s estes devem ter um intervalo - a quarta feira - pelo que não há escola para os pequenotes, leia-se para a Miminha, até ela começar a alfabetização, ou seja, a primeira classe.

Apesar de tudo, estes dias são também tempo com os pequenotes, e por isso insisto em ficar com eles e ir fazendo isto ou aquilo, ou tudo.

Ontem foi quarta-feira, dia da mamã e o Campeão foi para casa de um amigo. De modo que resolvi passear um pouco com a Miminha, comer batatas fritas (cheias de maionese e ketchup) levá-la a uma loja de vestuário de dança, onde se deslumbrou com os vestidos de dança de salão, para que escolhesse a sua roupa de ballet.

Surpreendeu-me com um ˝não gosto de cor-de-rosa, mamã˝. Escolheu preto.



E fica linda, ficará sempre, não importa a cor que escolha!

Patrícia

Planeamento e organização

Uma destas noites a Miminha teve um pesadelo e decidiu que os seus peluches de conforto não eram suficientes para a fazerem encarar o medo do sonho que teve. Assim, foi procurar conforto no nosso calor, chegando muito de mansinho e enfiando-se na cama entre nós.

De manhã deparámo-nos com a seguinte imagem na sua cama:

Foi mas deixou os seus companheiros devidamente alinhados e tapados, não fossem ter frio.

Sempre disse: mulher precavida, vale por vinte!

Patrícia

11.9.10

Festa de aniversário do Campeão com os amigos da Holanda

O Campeão teve as suas festas de aniversário em Portugal. Foi aos golfinhos, teve o dia de anos celebrado, e o dia seguinte com família e o amigo Tiago. Apesar disso queria uma festa, desportiva (era o critério) com os amigos da Holanda, uma vez regressado das férias de Portugal.

A escola começou dia 2 de Setembro. Os convites foram entregues e apareceram 20 meninos e meninas na sua festa de múltiplas nacionalidades, sendo falado o inglês, francês e português. E fizémos-lhe a vontade, seguindo o mote, desportivo.

Começaram por os hidratar com limonada para o que se seguiria, uma hora de kick fun, bastante intensa



Depois novamente um refresco para irem jogar mais uma hora de futebol e basquete:




Enfim o bolo (feito e decorado em casa com as ideias dos meninos) e as prendas



E desportiva foi a festa – eu pelo menos fiquei de rastos...

Patrícia

5.9.10

Correspondência de Verão

Cinco semanas das férias de Verão sem os papás. Quer dizer, o papá foi levá-los e ficou uns diazinhos com eles. Depois a mamã não resistiu e apareceu de surpresa para o aniversário do Campeão e voltou para buscá-los duas semanas depois.

Valia-nos saber que estavam nas melhores mãos que podiam estar em todo o mundo, os telefonemas diários e a troca de correspondência (de parte a parte).



Conta quem viu que eles contavam quantos corações um tinha o respectivo postal e quantas palavras...

Fica o convite a quem passou este maravilhoso tempo com eles a contar algumas memórias dignas de registo.

Patrícia

Uma experiência deliciosa

Estas fotos não são actuais. A experiência ocorreu há já uns anos com a Miminha na primeira sala do infantário (portanto ela tinha entre 14 e 20 meses). Mas andei a organizar as fotos e como achei bastante interessante, resolvi partilhar, pode ser que queiram fazer com os vossos – em especial o Tomás que hoje faz 2 aninhos e concerteza iria adorar...

A receita é simples. Precisa-se se uma mesa ou algo em que os pequenotes possam brincar e se lave facilmente. Uma embalagem de chocolate liquido e uma banheira. Despe-se o pequenote(s), senta-se na mesa e despeja-se o chocolate em cima da mesa.

Deixa-se o pequenote explorar (sem impaciência), tocando, cheirando e claro, provando.

Depois toca a lavar.
Simples, divertido e pode fazer-se em casa.

Patrícia

25.8.10

Nadar com golfinhos


Desde que sei que é possível nadar com golfinhos que o quero fazer e ainda não fiz. O Campeão teve a sorte de lhes tocar, ser levado por um deles e instruir um deles para fazer umas gracinhas.


Umas férias de Verão com delícias que ninguém lhes pode tirar da memória!

Patrícia

Bodyboard - iniciados pelo tio na praia azul




Eu (e mais uns quantos) também fui, no Magoito!

Um privilégio, só disponível para alguns...

Patrícia

7.7.10

Eat up - No food waste allowed

Li hoje uma notícia que achei fabulosa sobre um restaurante chamado Wafu na Austrália. A ideia central é “Eat up - no food waste allowed at this restaurant”.

Actualmente, deita-se fora um montante astrónomico de restos de comida em muitas mesas do mundo. Nem vou entrar pelo argumento de que, enquanto tantos estômagos nunca conhecem a sensação de satisfação, que deveria ser suficiente. Há que pensar também na nossa saúde (sobretudo nos perigos variados com o excesso de peso) e no desperdicio que estamos a criar para um planeta que não tem como o digerir.

Ora, no dito restaurante, inicialmente quem deixasse comida no prato pagava uma multa. Agora mudaram de técnica, dando um desconto de 30% aqueles que não deixam nada no prato e, portanto, não criam desperdicio de comida e lixo.

As regras são muito explicitas e precisas e constam do website do restaurante:
- Ao escolher e pedir deve-se ter consciência do que se necessita e o apetite que se tem. Em bom português, não ter mais olhos que barriga!
- Encontrar prazer na comida é acabá-la. Pelo que é pedido ao cliente para não deixar nada no prato (incluindo os vegetais que não são decoração).
- Instiga-se a partilha de refeições (como se faz em casa). Assim garante-se que se reduz o desperdicio de comida.
- Se nós fizermos a nossa parte na redução de desperdicio de comida, estamos a fazer a diferença.

Concordo plenamente. Que tal ser pioneiro desta moda que, certamente, irá pegar?

Patrícia

5.7.10

Celebração do casamento

Há 9 anos, no topo de um Monte no Redondo com a paisagem a perder de vista e pouco antes do pôr do sol, casámos. Familiares próximos e amigos celebraram connosco. Alguns (felizmente poucos) já nos deixaram, de outros alguns perdemos o contacto embrenhados cada um nas suas vidas, outros, vamos vendo em momentos mais breves do que gostaríamos, sobretudo porque temos estado longe.

O que nos uniu - pelo meu lado - foi esse Amor que, (durante séculos, sobretudo filósofos e poetas) tantos têm tentado sem sucesso dissecar, qualificar, quantificar mas que parece poder apenas ser sentido. E de tão diversas maneiras.

Há 9 anos atrás não tive grandes dúvidas ou hesitações em me juntar ao Grandalhão. Amando, a questão que me colocava (e coloco dia após dia) era como seria a manutenção desse Amor. Poderia o Amor perdurar e por quanto tempo?

Entre outros, Sartre discutiu o tema. Como dar estabilidade a uma relação se a personalidade de cada um é dinâmica e mutável? Se somos incoerentes, se uma interdependência construída na individualidade origina um necessário equilibrio tão movediço?

Unir-se a alguém exige construção contínua, atenção, adaptação ou reorientação em função das coisas que vão mudando (e são tantas!) dentro e á nossa volta. A construção de uma vida em comum no respeito da individualidade de cada um.

E surgem frutos. Os “eles” que nos cortam a respiração. Que nos deslubram e maravilham e com tanta intensidade que, por vezes, nos desgastam também. Um projecto comum. Que cresçam saudáveis. Que se tornem Homem e Mulher. Que sejam gente de bem.

A espreitar-te, e a eles, e aos nossos.

Com muito orgulho, ao lado do Homem de olhar verdadeiro, festejo.

Patrícia

4.7.10

Espectáculo de ballet

Foi hoje o dia que ela esperava há meses. Poder pintar os olhos no seu espectáculo de ballet. E porque o prometido é devido, pintei-lhe os olhos.


Lá fomos para o espectáculo a hora devida. E chegámos a sala onde deu o seu primeiro espectáculo de ballet.


Uma plateia internacional compunha o público.

A Miminha é uma graciosidade. Sei que sou parcial mas digo e redigo convicta de que é mesmo. Apareceu duas vezes em palco. A primeira a fazer de fada da Primavera

A segunda, a fazer de ratita, numa varição do Quebra Nozes


Depois, tranquilamente, viu o resto espectáculo.

Ganhou um balão e deixou a sala de espectáculo nos fortes braços do papá. Triunfante mas a queixar-se de que não tinha tido uma flor, enquanto o Campeão se queixava de fome.

Patrícia

eles

Olho para eles em deleite rendido. E apavora-me a inevitável brevidade destes momentos. Forço-me a fixá-los, na vã tentativa de gravá-los na memória como são agora, antes de passarem a ser algo que só pode ser pior do que isto. Eles são as personificações dos sonhos que nunca sequer ousei sonhar, a materialização da ínfima porção de excelência em mim.

Não tenho qualquer ambição de continuidade, e jamais me atreveria a pedir-lhes tal sacrifício, mas sofro por saber à partida que virá o dia em que não poderei continuar a acompanhar as suas caminhadas. Ainda que à distância, pois tal é o fado dos pais, a medo e em silêncio para não os atrapalhar.

Tento convencer-me que sou diferente, que sou capaz de os encorajar a crescer. Porque havia de os prender, eu quero que sejam senhores de si. E eu de mim, orgulhoso que sou do que atingi e de tudo o que ainda me espera.

Mas já vejo no horizonte a curva do declínio e arrependo-me do tempo que perdi. Por mais pequeno que seja, castigo-me pelo desperdício de momentos com eles. A cada novo dia prometo que vou estimar cada gesto, cada som. Que vou fazer este período prolongar-se, se possível eternizar-se.

Quando penso assim tudo desvanece e perco o pudor. Largo o mundo inteiro sem hesitação ou arrependimento. Tudo aquilo por que outros dariam as suas vidas. Pois sou velho antes do tempo, viajo para o futuro sem corpo e antecipo-me a mim próprio. Talvez apenas por cobardia, para evitar sentir o peso da velhice.

Nuno

30.6.10

Final do ano lectivo 2009/2010 – Miminha

Para a Miminha foi o primeiro ano na escola. Um ano de desafios: foi iniciada na língua francesa e inglesa uma vez que este ano decidiram começar o sistema de ensino bilingue.

Confesso que no inicio do ano estava algo apreensiva, tendo em conta que aos 3 anos já levava português e holandês na bagagem. Mas aqui estamos, findo o ano lectivo com ela a falar também francês e claramente iniciada no inglês. Um absoluto espanto! Em 43 itens avaliados teve apenas 5 com a nota “competência em curso de aquisição” e todos os outros “competência adquirida”.

Na festa da escola, os pequenotes cantaram lindamente as suas canções em inglês e francês.

Também da sua classe partem alguns meninos: o Simon para França, a Maelle para a escola holandesa, e outros que não sei bem.

Ficam alguns dos lindos e coloridos trabalhos do ano.








Patrícia

Final do ano lectivo 2009/2010 – Campeão

O ano lectivo acaba amanhã. O Campeão passa com louvor para o CE2 ou, para quem prefere a minha escala, para a terceira classe.

Da sua classe alguns amigos ja sabemos que vão partir: a preferida Azylis que parte para a Grécia, o Maxime e o Léon, para a escola holandesa. Mas antes, fizeram um belo espectaculo na festa da escola.

Altura da casa ser assaltada com os trabalhos do ano, alguns dos quais ficam registados.





Patrícia

22.6.10

Reflexão despoletada por uma das nossas fotos da Tunisia

O Anuncio da Adesão á CEE

Dei comigo a relembrar uma imagem que retive em 1984, há portanto mais de vinte e cinco anos. Num dia de calor abrasador, ás duas e pouco da tarde fiquei retido numa passagem de nível á entrada de Coimbra, aguardando que o comboio passasse e alguém abrisse as cancelas.

O calor era sufocante. Insuportável. Sem ar condicionado no carro, ao fim de quase três quartos de hora de espera, já não sabia o que fazer: se ter os ventiladores ligados, se desligados, as janelas abertas ou fechadas, ou ambas as coisas.

Indignado também pela pressa, considerava inadmissível que á entrada de uma grande cidade, pudesse ainda subsistir um sistema daqueles forçando a inaceitáveis e intermináveis esperas. A minha e, claro está, e a de uma enorme fila de carros, autocarros e camionetas que se apinhavam, a perder de vista, pelos dois lados da linha. Nos outros dias, no dizer de muitos, era sempre o mesmo, precisamente naquela hora a que retomavam usualmente as suas actividades da tarde.

Foi enquanto desesperava com o problema da climatização que ouvi, a rádio, anunciar que tinha sido aceite, por Bruxelas, o pedido de adesão de Portugal e Espanha á CEE. Olhando então pela janela direita do carro recordo a imagem de um velho lavrador que, sob aquele sol abrasador, tentava árduamente manobrar uma junta de bois com um grande arado em madeira revolvendo, á sua passagem, enormes blocos de terra endurecida pela secura extrema daquela primavera.

Retive esta imagem ao ouvir a notícia, e ainda hoje a associo invariávelmente á adesão de Portugal á CEE.

Na altura já conhecia (empresarialmente) alguns países europeus, as suas mentalidades, o seu nível de desenvolvimento, de educação, as suas capacidades de organização, formação e conhecimento. Questionei-me então, a mim próprio, se este país, ainda naquele débil estádio de desenvolvimento, sem infraestruturas, formação e tecnologia, poderia vir a “suceder” num espaço alargado de mercados altamente competitivos.

A verdade porém é que não íamos sózinhos: nesta matéria, a Espanha não divergia muito de nós. Fiquei portanto esperançoso, e naturalmente satisfeito, mas também a recear que, apesar dos enormes apoios esperados da CEE, tivéssemos capacidades mínimas de sucesso para uma “requerida” convergência económica e financeira de longo prazo, ambas altamente exigentes, e de voltarmos a repetir erros passados.

Voltei a pensar que não tinha emenda: o mesmo meu pessimismo de sempre, pois claro!

É que o país estava social e económicamente bastante debilitado: tinha acabado de sofrer (1983/84) um “tratamento de choque” duríssimo do FMI, tenazmente conduzido por Ernâni Lopes, num esforço derradeiro de reequilibro das finanças públicas e relançamento económico, muito penoso para todos os portugueses: com uma inflacção superior a 20% e fortes desvalorizações da moeda, as empresas estavam fortemente descapitalizadas, sem acesso a financiamento interno, e muito menos ao investimento. Foi uma lição pesada.

Naquela altura ninguém pagava a ninguém: a começar pelo Estado, e a acabar nas pessoas, passando óbviamente pelas empresas. Os bancos não tinham crédito para conceder, e as empresas que o tinham plafonavam-no (pagavam empréstimos com crédito novo, ou reformavam a dívida a cem por cento), cativando-o. Lembro-me de ter de a ir ao Banco de Portugal negociar directamente os empréstimos superiores a 30 mil contos, (que nem me chegavam para pagar os salários de um mês) e de ir ao Barclay´s, a Londres, negociar directamente crédito externo para financiar a actividade corrente da empresa.

Multiplicavam-se falências, salários em atraso, despedimentos, forte desemprego e emigração. Os activos reavaliavam-se anualmente, para evitar as falências técnicas.

Nas empresas, a palavra investimento era “proibida”, e não ter salários em atrazo uma distinção. Até o Estado teve que pagar o 13º mês com Certificados de Aforro!

Com a Adesão, o salto apresentava-se, de facto, gigantesco.

Cito um pequeno exemplo: em 1977, enquanto controller da empresa (com mais de 2.200 trabalhadores) preparava o Orçamento cumprindo naturalmente as regras e as matrizes da CUF desagregando a sua vertente comercial, em duas grandes rubricas: o mercado interno, e o externo, sendo que o interno representava o mercado do Grupo (e das suas associadas), e se estimava rondar os 2,5 milhões de consumidores onde concorríamos quase sózinhos.

Três anos mais tarde, dada a grande necessidade da empresa (e do país) obterem divisas, exportando, houve que ajustar este conceito passando então a abranger todo o mercado nacional, alargando-o para 10 milhões.

Com a CEE, oito anos depois, aquele mercado passara “nominalmente” para 260 milhões. E se hoje a empresa existisse, com 500 milhões, seria duzentas vezes superior.

Já então se falava de uma enorme oportunidade mas,... e a enormidade da concorrência?

Era esta a dimensão do salto, e esta foto recente da Tunísia sugere-o.

Mais verde, menos agreste, esta imagem é em tudo idêntica á que retive há 26 anos, em Coimbra. Não só a foto, claro, mas também o contexto do país: Déficit, Dívida e Desemprego. Os mesmos três “D” do passado, a que voltaremos a ter que acrescentar o quarto (o da Desvalorização, com ou sem ...FMI).

Isto porque por cá há quem pense que, por não verem hoje imagens destas ás portas de Coimbra, estamos bem melhor que a Tunísia: é que nós temos a A1, e eles não.

Talvez por isso há quem queira o TGV, para por lá passar mais ao largo, e ainda mais depressa.

Até pode ser que Coimbra saia mesmo do mapa. E não fará falta: de avião, automóvel ou TGV, a cidade, as suas cancelas e os seus malfadados congestionamentos, áquela velocidade, nem se vêem!

São as dinâmicas dos tempos: tal como aquela imagem se projectou numa foto, e esta, neste filme...

Carlos