O Anuncio da Adesão á CEE
Dei comigo a relembrar uma imagem que retive em 1984, há portanto mais de vinte e cinco anos. Num dia de calor abrasador, ás duas e pouco da tarde fiquei retido numa passagem de nível á entrada de Coimbra, aguardando que o comboio passasse e alguém abrisse as cancelas.
O calor era sufocante. Insuportável. Sem ar condicionado no carro, ao fim de quase três quartos de hora de espera, já não sabia o que fazer: se ter os ventiladores ligados, se desligados, as janelas abertas ou fechadas, ou ambas as coisas.
Indignado também pela pressa, considerava inadmissível que á entrada de uma grande cidade, pudesse ainda subsistir um sistema daqueles forçando a inaceitáveis e intermináveis esperas. A minha e, claro está, e a de uma enorme fila de carros, autocarros e camionetas que se apinhavam, a perder de vista, pelos dois lados da linha. Nos outros dias, no dizer de muitos, era sempre o mesmo, precisamente naquela hora a que retomavam usualmente as suas actividades da tarde.
Foi enquanto desesperava com o problema da climatização que ouvi, a rádio, anunciar que tinha sido aceite, por Bruxelas, o pedido de adesão de Portugal e Espanha á CEE. Olhando então pela janela direita do carro recordo a imagem de um velho lavrador que, sob aquele sol abrasador, tentava árduamente manobrar uma junta de bois com um grande arado em madeira revolvendo, á sua passagem, enormes blocos de terra endurecida pela secura extrema daquela primavera.
Retive esta imagem ao ouvir a notícia, e ainda hoje a associo invariávelmente á adesão de Portugal á CEE.
Na altura já conhecia (empresarialmente) alguns países europeus, as suas mentalidades, o seu nível de desenvolvimento, de educação, as suas capacidades de organização, formação e conhecimento. Questionei-me então, a mim próprio, se este país, ainda naquele débil estádio de desenvolvimento, sem infraestruturas, formação e tecnologia, poderia vir a “suceder” num espaço alargado de mercados altamente competitivos.
A verdade porém é que não íamos sózinhos: nesta matéria, a Espanha não divergia muito de nós. Fiquei portanto esperançoso, e naturalmente satisfeito, mas também a recear que, apesar dos enormes apoios esperados da CEE, tivéssemos capacidades mínimas de sucesso para uma “requerida” convergência económica e financeira de longo prazo, ambas altamente exigentes, e de voltarmos a repetir erros passados.
Voltei a pensar que não tinha emenda: o mesmo meu pessimismo de sempre, pois claro!
É que o país estava social e económicamente bastante debilitado: tinha acabado de sofrer (1983/84) um “tratamento de choque” duríssimo do FMI, tenazmente conduzido por Ernâni Lopes, num esforço derradeiro de reequilibro das finanças públicas e relançamento económico, muito penoso para todos os portugueses: com uma inflacção superior a 20% e fortes desvalorizações da moeda, as empresas estavam fortemente descapitalizadas, sem acesso a financiamento interno, e muito menos ao investimento. Foi uma lição pesada.
Naquela altura ninguém pagava a ninguém: a começar pelo Estado, e a acabar nas pessoas, passando óbviamente pelas empresas. Os bancos não tinham crédito para conceder, e as empresas que o tinham plafonavam-no (pagavam empréstimos com crédito novo, ou reformavam a dívida a cem por cento), cativando-o. Lembro-me de ter de a ir ao Banco de Portugal negociar directamente os empréstimos superiores a 30 mil contos, (que nem me chegavam para pagar os salários de um mês) e de ir ao Barclay´s, a Londres, negociar directamente crédito externo para financiar a actividade corrente da empresa.
Multiplicavam-se falências, salários em atraso, despedimentos, forte desemprego e emigração. Os activos reavaliavam-se anualmente, para evitar as falências técnicas.
Nas empresas, a palavra investimento era “proibida”, e não ter salários em atrazo uma distinção. Até o Estado teve que pagar o 13º mês com Certificados de Aforro!
Com a Adesão, o salto apresentava-se, de facto, gigantesco.
Cito um pequeno exemplo: em 1977, enquanto controller da empresa (com mais de 2.200 trabalhadores) preparava o Orçamento cumprindo naturalmente as regras e as matrizes da CUF desagregando a sua vertente comercial, em duas grandes rubricas: o mercado interno, e o externo, sendo que o interno representava o mercado do Grupo (e das suas associadas), e se estimava rondar os 2,5 milhões de consumidores onde concorríamos quase sózinhos.
Três anos mais tarde, dada a grande necessidade da empresa (e do país) obterem divisas, exportando, houve que ajustar este conceito passando então a abranger todo o mercado nacional, alargando-o para 10 milhões.
Com a CEE, oito anos depois, aquele mercado passara “nominalmente” para 260 milhões. E se hoje a empresa existisse, com 500 milhões, seria duzentas vezes superior.
Já então se falava de uma enorme oportunidade mas,... e a enormidade da concorrência?
Era esta a dimensão do salto, e esta foto recente da Tunísia sugere-o.

Mais verde, menos agreste, esta imagem é em tudo idêntica á que retive há 26 anos, em Coimbra. Não só a foto, claro, mas também o contexto do país: Déficit, Dívida e Desemprego. Os mesmos três “D” do passado, a que voltaremos a ter que acrescentar o quarto (o da Desvalorização, com ou sem ...FMI).
Isto porque por cá há quem pense que, por não verem hoje imagens destas ás portas de Coimbra, estamos bem melhor que a Tunísia: é que nós temos a A1, e eles não.
Talvez por isso há quem queira o TGV, para por lá passar mais ao largo, e ainda mais depressa.
Até pode ser que Coimbra saia mesmo do mapa. E não fará falta: de avião, automóvel ou TGV, a cidade, as suas cancelas e os seus malfadados congestionamentos, áquela velocidade, nem se vêem!
São as dinâmicas dos tempos: tal como aquela imagem se projectou numa foto, e esta, neste filme...
Carlos