Emprego novo, vida nova. Não é ditado mas devia ser, tal o impacto de um novo desafio profissional na rotina familiar. Da noite para o dia tudo muda e todos se ressentem. Mais ainda do que os aspectos logísticos, é a reduzida disponibilidade - intelectual, física, afectiva - que provoca o maior desgaste. No próprio, que sente não poder dar tanto de si como habitual; no parceiro, que de repente recebe uma carga adicional para a qual não estava preparado; nos putos, que só se apercebem da mudança em termos práticos e se ressentem do défice de atenção.
Há dias chegou-me aos ouvidos a história (sim, com h...) de um indivíduo que se despediu da família durante 6 meses para se dedicar a uma nova posição. Um pouco radical por certo mas prevalece a lógica da imperiosa dedicação nos primeiros tempos para causar boa impressão e asfaltar devidamente a estrada do sucesso. Escolho aqui a palavra sucesso com hesitação, pois pode dar ideia falsa de ambição pessoal a troco do equilíbrio colectivo em casa. Para quem está acostumado às lides das empresas internacionais em que nos movemos, o conceito é contudo amplamente familiar e resume-se à sobrevivência num ambiente intratável de "dog eat dog", no qual por vezes nem o máximo de nós é suficiente. Quem se segurar a uma posição, achar que tem cadeira garantida, deixar de crescer, perde lugar instantaneamente e é substituído por alguém mais forte, mais esfomeado.
Tudo isto para explicar a dedicação obrigatória, sobretudo nos primeiros tempos em que ninguém nos conhece. Com o tempo, bem devagar, há pequenos espaços para acomodação ligeira, para desligar o telemóvel, ignorar mensagens, fazer as coisas à nossa maneira. Mas no princípio o campo está minado, impõe-se concentração total para evitar lesões permanentes ou até mortíferas. Isto de ser a pessoa nova é sempre muito complicado, mesmo para quem o faz tantas vezes quanto eu.
É neste estado de inquietação que me encontro agora. Estive 2 anos mais sossegado, com controlo quase total do tempo e do espaço, e de repente fui engolido por um monstro insaciável de expectativa. De um escritório privado com vista total sobre Amesterdão, passei para um open space com janelas para o pátio. De reuniões marcadas com semanas de antecedência para ajuntamentos instantâneos sem tempo, lugar ou pré-aviso. De um ambiente populado predominantemente por contabilistas e advogados para outro dominado por marketeers e designers. De uma organização em que o poder era manifesto e delegado cerimoniosamente, para uma em que a autoridade é esparsa e intangível. De um chefe excessivamente disciplinado e confiante para um manager caótico e inseguro. Enfim, de 8 para 80.
Tenho tido portanto necessidade de me dedicar à causa, pelo menos até sentir que tenho alguma segurança sobre as responsabilidades que me foram alocadas. Escusado será dizer que esta minha entrega ao trabalho provoca mossa em casa, pois com isso deixei de ter tempo para todas aquelas pequenas coisas que antes assegurava. É preciso tempo para encontrar um novo equilíbrio, para encaixar todas as peças harmoniosamente. Lá chegaremos mas entretanto é impossível evitar agravos.
Compreendo, procuro compensar. Nesta fase é tudo o que posso fazer. O primeiro passo já está: sou a partir de hoje efectivo - até ontem estive em período de experiência.
Nuno
Há dias chegou-me aos ouvidos a história (sim, com h...) de um indivíduo que se despediu da família durante 6 meses para se dedicar a uma nova posição. Um pouco radical por certo mas prevalece a lógica da imperiosa dedicação nos primeiros tempos para causar boa impressão e asfaltar devidamente a estrada do sucesso. Escolho aqui a palavra sucesso com hesitação, pois pode dar ideia falsa de ambição pessoal a troco do equilíbrio colectivo em casa. Para quem está acostumado às lides das empresas internacionais em que nos movemos, o conceito é contudo amplamente familiar e resume-se à sobrevivência num ambiente intratável de "dog eat dog", no qual por vezes nem o máximo de nós é suficiente. Quem se segurar a uma posição, achar que tem cadeira garantida, deixar de crescer, perde lugar instantaneamente e é substituído por alguém mais forte, mais esfomeado.
Tudo isto para explicar a dedicação obrigatória, sobretudo nos primeiros tempos em que ninguém nos conhece. Com o tempo, bem devagar, há pequenos espaços para acomodação ligeira, para desligar o telemóvel, ignorar mensagens, fazer as coisas à nossa maneira. Mas no princípio o campo está minado, impõe-se concentração total para evitar lesões permanentes ou até mortíferas. Isto de ser a pessoa nova é sempre muito complicado, mesmo para quem o faz tantas vezes quanto eu.
É neste estado de inquietação que me encontro agora. Estive 2 anos mais sossegado, com controlo quase total do tempo e do espaço, e de repente fui engolido por um monstro insaciável de expectativa. De um escritório privado com vista total sobre Amesterdão, passei para um open space com janelas para o pátio. De reuniões marcadas com semanas de antecedência para ajuntamentos instantâneos sem tempo, lugar ou pré-aviso. De um ambiente populado predominantemente por contabilistas e advogados para outro dominado por marketeers e designers. De uma organização em que o poder era manifesto e delegado cerimoniosamente, para uma em que a autoridade é esparsa e intangível. De um chefe excessivamente disciplinado e confiante para um manager caótico e inseguro. Enfim, de 8 para 80.
Tenho tido portanto necessidade de me dedicar à causa, pelo menos até sentir que tenho alguma segurança sobre as responsabilidades que me foram alocadas. Escusado será dizer que esta minha entrega ao trabalho provoca mossa em casa, pois com isso deixei de ter tempo para todas aquelas pequenas coisas que antes assegurava. É preciso tempo para encontrar um novo equilíbrio, para encaixar todas as peças harmoniosamente. Lá chegaremos mas entretanto é impossível evitar agravos.
Compreendo, procuro compensar. Nesta fase é tudo o que posso fazer. O primeiro passo já está: sou a partir de hoje efectivo - até ontem estive em período de experiência.
Nuno
2 comentários:
Coragem!
Já passaram por fases mais complicadas, mas são uma família forte e unida :)
Beijinhos
Filho Nuno!
A passagem de 8 para 80 que descreves é um tumulto e um susto... Exigirá uma flexibilidade de adaptação considerável!
Se percebi bem, passaste a efectivo depois de provas dadas.
Angustias-te perante a sombra do Síndrome de Pai Ausente,imagino eu?! Como consolação, a existir ocasionalmente, que seja em regime de rotatividade com o outro pai/mãe, que possa garantir maior presença na família.Se os papeis forem rolando haverá algum equilíbrio, que sairá fortalecido pelos períodos de presença conjunta.
Quem na vida não andou por aí??? Mas ficam os laços e os nós para toda a vida, tenho a certeza! No vosso caso, também... Beijinhos
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